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Kevin Johansen
A sensação foi de déjà-vu.
Antes de começar o show do uruguaio Jorge Drexler no Canecão, em 1 de
junho passado, Paulinho Moska se aproximou da mesa e entregou-me um
CD-R. “Kevin Johansen”, anunciou. “Nasceu no Alasca e mora na
Argentina. Quando ouvi, senti o mesmo de quando ouvi o Drexler pela
primeira vez.”
Em 2002, Moska recebeu de uma fã uruguaia o
CD-R do compatriota dela. Ficou impressionado e regravou-o para, entre
outros, Celso Fonseca. Ele também adorou e regravou para mim. Por
outros caminhos, simultaneamente, Walter Salles convidava Drexler a
compor para “Diários de motocicleta”, futuro Oscar de melhor canção.
Moska, portanto, tem crédito na casa. Não o desperdiçou louvando
Johansen, que não tem CD lançado no Brasil. Da mesma classe de Drexler,
a de 1964, o americano-argentino lembra bastante o médico montevideano.
Não no corpo, isto é, não na concretude do som, bem mais pop, e sim na
alma, na sofisticação de canções cheias de referências.
Dizer que Johansen faz música latino-americana, porém, seria
meia-verdade. Não só porque ele nasceu em Fairbanks, no Alasca, filho
de argentina com americano. Não só porque ele conheceu a terra da mãe
apenas aos 12 anos. Não só porque, aos 26, voltou aos EUA, para viver e
fazer música em Nova York por quase uma década mais.
O disco que Moska me copiou, “City zen”, fora lançado por Johansen em
2004. Tem pouco mais de uma hora de duração. É como se trouxesse — não
em seqüência — meia hora de música latino-americana, cantada em
espanhol, e meia hora de rock alternativo norte-americano, cantado em
inglês. Talvez por isso consiga fisgar até os surdos de espírito, que
consomem qualquer bobagem dos EUA, sem ouvir o que nos dizem nossos
vizinhos.
No meio do CD, fica a bilíngüe “La Falla de San Andrés”, na qual o
sujeito justifica o bolo que deu no aniversário do casal: “A terra
tremia e as pessoas rezavam/ Perguntei a um homem, ‘o que foi, mister
?’/ Ele me falou algo da Escala Richter/ (...) Não foi minha culpa
desta vez/ Foi a Falha de San Andrés”. A faixa é dedicada ao mexicano
César Hernández Grajeda, dito El Chícharo, e ao americano David Byrne,
ex-Talking Heads.
Como geografia é destino, a música de Kevin Johansen é uma viagem
musical entre o Alasca e a Terra do Fogo, na qual ele foi coletando
gêneros com a voracidade dos que estão sempre de passagem. Nos seus
dois discos anteriores, “The nada” (2000, gravado ainda no CBGB’s, em
Nova York, no qual ele foi músico residente aos sábados) e “Sur o no
sur” (2002, já da atual fase portenha, indicado a três Grammy latinos),
ele até anotava na qual o gênero das faixas, descritas, por exemplo,
como tango, samba, cumbia flamenca, tex-mess, zydeco rush, popklore,
milonga hall ou Barry White meets Nirvana.
Em “City zen”, já a partir da capa uma viagem de ônibus por Buenos
Aires, Johansen não inventa gêneros para suas composições, mas usa
dedicatórias para sinalizar um percurso. Assim, além de Chícharo e de
Byrne, ele homenageia seus compatriotas Atahualpa Yupanqui (“Atahualpa,
you funky!”) e a trupe cômico-erudita Les Luthiers (“Oops”), além do
brasileiro Tom Zé (“Tom Zen”).
Sua música não se esgota nos jogos de palavras. Pelo bilingüismo, pelo
ecletismo, pela instrumentação variada e pelo grande alcance vocal, a
audição de um CD de Johansen pode sugerir ao ouvinte desatento uma
coletânea com vários artistas das Américas. De quebra, ele oferece
alguns poemas recitados, como o filotabagista “Volutas de humo”, de
Salvador Angel Molinari, incluído em “City zen”.
Neste, o melhor dos seus três álbuns com a banda The Nada, há três
participações especialíssimas: Drexler, autor da letra e co-intérprete
da elegante “No voy a ser yo”; o compatriota León Gieco, na
decadentista “Milonga subtropical” (“milonga do Rio Grande do Sul para
cá”, pagos tão distantes das capitais que “o aquecimento global nunca
chegou a nos aquecer de todo”); e Miranda Johansen, sua filha então com
sete anos.
A menina transforma os vocais de apoio do sereno rock “Everything is
(Falling into place)” numa das passagens mais comoventes que ouvi
recentemente. Enquanto isso, papai canta “você sabe que eu tenho um
coração pop/ O que mais eu posso dizer?/ Eu amo músicas simples/ Que
qualquer um possa tocar/ Veja esta garotinha/ Ela tem sete anos/ Você a
escuta cantar/ Você escuta a sua alma”. Johansen fala de si próprio,
claro.
Porque, nele, o intelecto e a emoção estão muito bem calibrados. Isto
se torna bem audível em duas canções de amor contíguas, “All I wanna do
is you” e “Desde que te perdí”. Na primeira, o apaixonado se compara a
“um soldado, lutando uma guerra/ Contra todos, a realidade se tornou/
Seu pior inimigo, agora você é sua musa/ Você é sua munição”. A segunda
dribla os clichês do abandono com “estão todas se enamorando por mim/ E
algumas até querem me convencer/ Que com elas poderia ser feliz”.
Sempre que as agendas permitem, Johansen, Drexler e Moska têm dado
canjas uns nos shows dos outros, em Buenos Aires ou Montevidéu,
enquanto sonham com um projeto trinacional chamado “Mercosurf”. Antes
dele, em outubro ou novembro, o argentino deve fazer sua primeira
aparição brasileira, dividindo o Centro Cultural Carioca com Moska.
Arthur Dapieve
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